No Dia Mundial de Luta Contra a Raiva, 28 de setembro, o médico-veterinário Nélio de Morais, presidente da Comissão Nacional de Saúde Pública Veterinária, do Conselho Federal de Medicina Veterinária (CNSPV/CFMV) é enfático: vacinação, educação em saúde e comunicação são ferramentas ativas na prevenção contra a doença. Morais relata que, desde 2015, o Brasil não tem notificação de raiva humana transmitida por cão (variante antigênica AgV 1).

Em sua análise, o país tem obtido sucesso na estratégia de eliminação de casos de raiva por cães, graças às campanhas anuais de vacinação de cães e gatos, à vigilância de animais suspeitos, aos bloqueios vacinais de foco e à profilaxia antirrábica pós-exposição em humanos.

“A raiva em animais de estimação de pequeno porte tem estado sob controle em todo o Brasil por serem vacinados periodicamente”, justifica. A explicação é que a vacina estimula a produção de anticorpos que neutralizam o vírus no organismo, seja do ser humano ou de outro animal. Isso impede uma maior produção de vírus por células e a disseminação para outras partes do corpo, inclusive o sistema nervoso central.

Entretanto, segundo Morais, não há motivos para relaxar. Pela dimensão continental do país, variados biomas, múltiplas situações ecológicas e imensa fauna, grande parte das espécies brasileiras tem potencial transmissor da raiva. “No nosso país, a raiva silvestre ocorre, sobretudo, em canídeos, como raposas (Cerdocyon ou Pseudalopex), guaxinins (Procyon) ou primatas não humanos (Callithrix). Todos possuem casos já registrados de transmissão aos humanos”, alerta.

Adicionalmente, em locais onde é comum adotar animais silvestres como animais de estimação ou onde há presença de morcegos infectados fica facilitada a possibilidade de transmissão de vírus e ocorrência de casos clínicos. “É uma clara ameaça a transmissão da raiva para outros animais ou humanos por quirópteros (morcegos), tanto hematófagos quanto insetívoros e frugívoros”, afirma.

De acordo com o médico-veterinário, nos últimos anos, os casos humanos têm sido causados por variantes virais oriundas de morcegos e canídeos silvestres. Muitos eles são acidentais e poderiam ser evitados com o atendimento antirrábico adequado. “Para neutralizar o risco e a vulnerabilidade, a situação requer a instalação de processos permanentes de vigilância fortalecidos e de educação em saúde e ambiental, especialmente, em populações ribeirinhas da Região Amazônica expostas à espoliação de morcegos hematófagos infectados”, sinaliza.

As ações de educação em saúde para os profissionais de saúde e a população devem conter abordagem ampla de saúde única. “Precisamos unir cidadãos e diversas profissões e setores (saúde, meio ambiente, agricultura e educação) na busca de soluções para diminuir os impactos e desequilíbrios do meio ambiente e, consequentemente, da raiva para os animais e seres humanos”, complementa.

Prevenção para pets

  • O responsável pelo animal deve exercer a guarda responsável, evitando que o cão e o gato agridam outra pessoa ou animal;
  • O responsável pelo animal deve evitar que o cão ou gato tenha contato com animais silvestres, principalmente, morcegos caídos no chão;
  • O responsável pelo animal deve ficar atento a qualquer mudança de comportamento do pet, após contato com um animal desconhecido.

Prevenção para humanos

  • Evitar contato com animais de companhia desconhecidos ou sem anuência do tutor;
  • Evitar contato com animais de rua, uma vez que não se conhece a condição clínica deles;
  • Evitar contato com animais silvestres, principalmente, raposas, guaxinins, gambás, macacos/saguis e morcegos;
  • Procurar uma unidade de saúde, caso haja algum acidente com cães e gatos ou animais silvestres potencialmente transmissores da raiva.

Atenção, profissional!

  • O médico-veterinário deve ficar atento a qualquer notificação de mudança de comportamento, principalmente, após contato com um animal desconhecido ou detecção de ferida sem causa conhecida, associada à não vacinação periódica de cão e gato sob sua responsabilidade;
  • Animais silvestres, como saguis, raposas e morcegos, podem estar infectados mesmo sem apresentar quadro clínico. O atendimento por médico-veterinário requer investigação de todo o histórico, com detalhamento de potenciais contatos.

Sobre a doença

A raiva é uma doença infecciosa de quadro neurológico que acomete mamíferos. O agente causador é um vírus da família Rhabdoviridae e gênero Lyssavirus, que pode ser transmitido a outro mamífero pela mordida, arranhões, lambedura de mucosas ou feridas com saliva infectada.

Quando um mamífero infectado morde outro da mesma classe, podendo ser uma pessoa ou outro animal, a saliva com o vírus, ao entrar em contato com a arranhadura ou solução de continuidade, pode gerar processo infeccioso. Inicialmente, são afetados os tecidos musculares e nervosos periféricos. Em seguida, é atingindo o sistema nervoso central, quando se caracteriza a forma clínica da doença. Daí em diante, há uma disseminação para outros órgãos do corpo, inclusive para as glândulas salivares, permitindo a manutenção dos vírus na natureza. 

Sintomas

Dependendo da variante viral, do animal transmissor e do local onde o vírus foi introduzido, pode haver quadros clínicos distintos. Porém, sempre se observa mudança de comportamento. A sintomatologia, na maioria dos casos, demonstra-se pela forma furiosa, com angústia, inquietude, excitação e agressividade. Pode ocorrer também a forma com sinais de paralisia, a qual evolui para a morte, devido ao comprometimento respiratório central. Em cães e gatos, esse formato é mais frequente quando o vírus é transmitido por morcegos.

Os sinais clínicos em cães e gatos mais comuns são: dificuldade de respirar e beber água por conta da paralisia muscular, sensibilidade a estímulo luminoso, alterações do latido (latido bitonal), dificuldade de deglutição, sialorreia (hipersalivação), tendência a fugir de casa, excitação das vias geniturinárias, irritação no local da agressão e falta de coordenação motora.

Evento

Para debater os protocolos e o papel da vacinação no controle da doença em humanos, hoje (28), às 19h, Morais participará de webinar realizado pela Sanofi Pasteur e pelo Instituto Butantan.

Com ele, participam do evento on-line a gerente científica da Sanofi Pasteur, Sandra Tomita, e o professor José Rafael Modolo, da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus Botucatu.

webinar será transmitido pelas mídias sociais da Sanofi no YouTube e no Instagram.

Dia Mundial

O dia 28 de setembro foi escolhido em homenagem à data de falecimento de Louis Pasteur, responsável pela produção da primeira vacina contra a raiva. Há 15 anos, o Dia Mundial de Luta contra a Raiva é promovido pela Aliança Global para o Controle da Raiva, a fim de criar consciência sobre as consequências da raiva humana e animal, bem como explicar formas de preveni-la.

Assessoria de Comunicação do CFMV